Este deveria ser um post sobre James Dean, que morreu há precisamente 50 anos. Sobre viver depressa e morrer quando se é jovem e se deixa um corpo magnífico e tudo isso que vocês sabem. Mas o acaso tem sempre vontade própria. E soube que morreu, há algumas horas, o melhor amigo do meu pai. Ele não viveu depressa, nem morreu jovem, e o seu corpo assistiu a uma degradação acelarada nos últimos dois anos. Testemunha das falhas constantes, o Nicolau desistiu de viver, sem se despedir de nós. Abandonou-se, assim, de tudo. Quando o corpo o traíu, esse não foi o momento em que o perdemos. Perdemo-lo quando nos deixou de contar as suas anedotas naquele tom sussurrante de quem faz uma traquinice, quando se ausentou da esplanada de sempre, quando parou de me ler parágrafos de Aquilino Ribeiro, quando já não partilhava refeições connosco nem nos esperava na Estação, quando deixou de encantar qualquer cão bravo, quando parou de sorrir.
Adiei visitá-lo por demasiado tempo. E agora, claro, agora tenho tempo para ir a um funeral de um homem que respeito e estimo, mas que já não está ali, já não sorri, já não me chama "Miudita", já é só ausência. Vou visitar um espectro, porque achei que daria sempre tempo para o rever. Vidas idiotas as nossas. Assim se aprende, a doer.





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