
De vez em quando, raramente, sou assolada pelas linhas que nunca lerei, pelo tempo que não tenho ou pelo potencial de descoberta, sempre tão irremediavelmente vasto. Custos de oportunidade que me deixam ofegante. As palavras que me fogem. Os cheiros de receitas por inventar. As referências dos outros. Os sorrisos de quem não conheço (ainda). Faltam-me os dias, tenho a certeza.
E é em momentos assim que decido escrever um livro. Um romance, para celebrar a circularidade dos tempos. Como se fosse possível eternizar. Ou multiplicar.
Descobri há dias que, se este livro fosse filme, teria a cena inicial perfeita, o melhor close-up, o suporte físico ideal. Gehanowska. É um bar, em Cracóvia. Tem umas 6 mesas, aconchegadas por sofás, todas dispostas cuidadosamente para a montra. Quem passa julga-se súbito espectador/a daquele filme que roda, indiferente aos olhares. As luzes tremem de amarelo suave e lume. Cheira a chá com rum. Cá fora chove. E lá dentro, bom, lá dentro acontecem todas as histórias por contar. E se eu ficasse...





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