Sexta-feira, Setembro 30, 2005

O fim de um abandono


Este deveria ser um post sobre James Dean, que morreu há precisamente 50 anos. Sobre viver depressa e morrer quando se é jovem e se deixa um corpo magnífico e tudo isso que vocês sabem. Mas o acaso tem sempre vontade própria. E soube que morreu, há algumas horas, o melhor amigo do meu pai. Ele não viveu depressa, nem morreu jovem, e o seu corpo assistiu a uma degradação acelarada nos últimos dois anos. Testemunha das falhas constantes, o Nicolau desistiu de viver, sem se despedir de nós. Abandonou-se, assim, de tudo. Quando o corpo o traíu, esse não foi o momento em que o perdemos. Perdemo-lo quando nos deixou de contar as suas anedotas naquele tom sussurrante de quem faz uma traquinice, quando se ausentou da esplanada de sempre, quando parou de me ler parágrafos de Aquilino Ribeiro, quando já não partilhava refeições connosco nem nos esperava na Estação, quando deixou de encantar qualquer cão bravo, quando parou de sorrir.
Adiei visitá-lo por demasiado tempo. E agora, claro, agora tenho tempo para ir a um funeral de um homem que respeito e estimo, mas que já não está ali, já não sorri, já não me chama "Miudita", já é só ausência. Vou visitar um espectro, porque achei que daria sempre tempo para o rever. Vidas idiotas as nossas. Assim se aprende, a doer.

Quarta-feira, Setembro 28, 2005

Podia ser nas autárquicas...



Foi no Chile. Foi a maior Marcha do Orgulho LGBT do Chile. Eram 8 mil, mas podiam ser 800 e, ainda assim, brilharam de coragem e dignidade. Luta-se, ali, por uma lei de uniões de facto. Por cá, precisamos desta energia. Já viram como aquele cartaz é actual? Começa a ser tempo de castigar as orientações políticas homofóbicas, creio.

(imgs daqui)

Terça-feira, Setembro 27, 2005

Co-dependência



Éramos um grupo de 8 naquele aeroporto. Depois do check-in, espalhámo-nos entre os perfumes da Duty Free, o WC e os restos de uma pizza fria do jantar. Subitamente chegou o momento. Era a última chamada. Apressámos o passo, as mochilas, as compras e os corpos para o portão de embarque. Mas havia fila. Lá ficámos, descansados pela manifesta partilha do atraso com vários outros/as passageiros/as. Quando chegou a nossa vez, fomos sacudidos pelo aviso da mulher de farda azul ao fundo do corredor: Despachem-se, vocês já são os últimos!! Lembro-me de correr, por instinto. Afinal, ninguém quer ficar por último. É feio. Arruina-nos a imagem. Claro. Até que alguém replicou: Há mais gente atrás de nós...
Regressámos aos mesmos passos espaçados. Tudo estava bem. E foi aí que me ocorreu. Precisamos sempre dos últimos. Não seríamos ninguém sem aqueles/as que perdem, um avião, um amor ou um concurso. São os "falhados da vida" que nos concedem vitórias. São os/as perdedores/as que nos acalentam a esperança. No fundo, o mérito é todo deles/as, ou nosso, quando nos atrasamos, salvando alguém de chegar por último. Ou de amar por último.
Ai de nós sem as comparações.

Segunda-feira, Setembro 26, 2005

Make Poverty History



Os U2 passaram recentemente por Portugal. Tenho uma amiga que me ligou muitas vezes durante o concerto e me enviou dezenas de fotos do evento. Foi assim que acedi ao relato das múltiplas iniciativas que, no espaço de um só concerto, aquela banda promoveu em matéria de direitos humanos. Soube bem. E este vídeo dá continuação a esse legado.

(Obrigada Cris C.!)

Vá lá, vá lá...

... nas últimas 48 horas sinto-me renovadamente Alegre.

Sexta-feira, Setembro 23, 2005

Remoínho



De vez em quando, raramente, sou assolada pelas linhas que nunca lerei, pelo tempo que não tenho ou pelo potencial de descoberta, sempre tão irremediavelmente vasto. Custos de oportunidade que me deixam ofegante. As palavras que me fogem. Os cheiros de receitas por inventar. As referências dos outros. Os sorrisos de quem não conheço (ainda). Faltam-me os dias, tenho a certeza.
E é em momentos assim que decido escrever um livro. Um romance, para celebrar a circularidade dos tempos. Como se fosse possível eternizar. Ou multiplicar.
Descobri há dias que, se este livro fosse filme, teria a cena inicial perfeita, o melhor close-up, o suporte físico ideal. Gehanowska. É um bar, em Cracóvia. Tem umas 6 mesas, aconchegadas por sofás, todas dispostas cuidadosamente para a montra. Quem passa julga-se súbito espectador/a daquele filme que roda, indiferente aos olhares. As luzes tremem de amarelo suave e lume. Cheira a chá com rum. Cá fora chove. E lá dentro, bom, lá dentro acontecem todas as histórias por contar. E se eu ficasse...

Quarta-feira, Setembro 21, 2005

Vénus reencarnada


Alison Lapper é mulher, cidadã portadora de deficiência e artista plástica. Audaz. E com um corpo transgressivo rompe tabus, estica os limites de aceitabilidade e rasga a nossa calma por dentro. E foi também assim que Marc Quinn decidiu fazer dela uma estátua, presentemente em exibição na londrina Trafalgar Square. E contrariamente às polémicas que se levantam por aí, celebrar um corpo que transgride é sempre um bom começo. Nota 20, a lembrar os trabalhos de Misha Gordin.

(Obrigada ao Que Mico!)

Agrafada confessa



Passado um mês, o Grilo Gritante continua a ser dos meus posts favoritos. Por vários motivos. Mas também há o Reality Check sobre a candidatura de Mário Soares. Ou a Depuração. Ficamos assim, incomodados/as e persistentes no vício deste blog.

Auschwitz (update)


Stop Posted by Picasa

Morreu Simon Wiesenthal, sobrevivente de vários campos de concentração e responsável por ter lavado à justiça mais de 1100 criminosos nazis.
Oiço a notícia e agitam-se em mim imagens recentes de uma visita aos guetos de Cracóvia e Varsóvia, ao Museu Powstania Warszawskiego e a Auschwitz, também. Fazer este percurso implica decidir entre dias leves e horas de repulsa que nos acompanham o resto da viagem. A minha opção decorreu da vontade de inscrever na memória pessoal um tempo de horror que não queremos reviver e que, por isso mesmo, importa lembrar. Porque aquilo por que passaram judeus, ciganos, homossexuais, padres, testemunhas de jeová, líderes políticos polacos, entre outros e outras, foi ainda mais duro do que filmes e livros podem projectar. Porque a crueldade se supera a si própria. E a despossessão foi total.
À entrada do campo, lê-se "O Trabalho Liberta". Acumulam-se roupas, óculos, panelas, escovas de dentes e de fato, pinceis de barba e próteses. No campo não se é pessoa, parafraseando Primo Levi. Duplo arame farpado, torre de vigilância e ameaça, ao lado do Bloco 11 onde se realizavam experiências médicas em crianças e execuções sumárias.

Dizem os zapatistas, a propósito do seu líder, que Marcos é "um palestino em Israel, um judeu na Alemanha. [...] Assim é Marcos, tão humano como qualquer outro neste mundo. Marcos é todas as pessoas exploradas, marginalizadas, as minorias oprimidas, resistindo e dizendo: - Basta!". E foi justamente assim que me senti em Auschwitz - as lições de uma História que revela a fragilidade das convicções e a inevitabilidade dos contextos.

Sábado, Setembro 17, 2005

Varsovia. Frio. Belas e coloridas pracas. Um Cafe Belle Epoque como nos filmes. As personagens, desta vez, falam tuga. Noivas nas igrejas e pombas que insistem em povoar fotos. Mais para (muito) breve.

Quarta-feira, Setembro 14, 2005

Telegrama



Cracovia fabulosa. Muito. Posts prometidos. Por enquanto, a voar para uma sopa de cogumelos selvagens, seguida de ganso com cuscus, tudo junto ao Mercado. Luxos-bagatela, como convem. As pernas imploram o sossego de uma esplanada.

Domingo, Setembro 11, 2005

Em directo



Primeiras impressoes num teclado sem acentos e demais acessorios desta nossa lingua. Na Polonia fala-se pouco ingles, revelando a cada instante que a unica lingua aproximadamente universal e' a gestual. A comida e' fascinante, sobretudo pelas sopas e as saladas. Esta' um calor humido de cortar ritmos a cardiacos. O centro historico de Torun e' uma perola. Bom vinho, cerveja suave, agua quase sempre com gas a menos que se insista em contrario. Ha' uma antipatia generalizada, intercalada por excepcoes que nos acaloram a alma. Tudo e' barato, mesmo para tugas pelintras como eu. O pao de gengibre afinal e' um bolo. As mini-mini-mini-saias sao profusamente populares.
E esta Conferencia veio lembrar que, mesmo nos sitios mais improvaveis - como um espaco onde centenas de cientistas sociais se reunem por 4 dias para debater Social Inequalities - o sexismo, a homofobia e, muito particularmente, a heteronormatividade espreitam, fazem rombos, suam de arrogancia. Basta dizer que, na sessao plenaria de abertura, apenas uma mulher foi convidada a falar, justamente a secretaria do evento responsavel por divulgar algumas informacoes organizacionais. Para cereja no topo do bolo, as informacoes que forneceu foram precedidas por comentarios idiotas por parte do Presidente do Congresso, referindo as qualidades de musa inspiradora da sua secretaria e atribuindo-lhe todo o bom gosto e beleza de cada detalhe da sala. Oh socorro. A provar que uma Sociologia das Sexualidades, com uma forte componente queer, e' urgente. Ha' muitos e muitas que pensam assim. E a tal sessao despertou rebeldias eventualmente catalisadoras de mudanca. A indignacao pode ser inspiradora, tambem na ciencia. :)
Proxima paragem: Cracovia.

Sábado, Setembro 10, 2005

Atreve-te!


Realiza-se em Lisboa, entre 15 e 21 de Setembro, a 9ª edição do Festival de Cinema Gay e Lésbico. Este ano, a programação inclui o 1º Colóquio de Estudos Gays, Lésbicos e Queer. A não perder. Porque a homofobia combate-se também com visibilidade.

Quarta-feira, Setembro 07, 2005

A caminho...



Nos próximos 10 dias. Esta Conferência, a pretexto. Posts mediante os cybercafés disponíveis. Muita expectativa. Dicas agradecem-se.

Segunda-feira, Setembro 05, 2005

Gota a gota perdemos vidas*



Aconteceu isto.
Fiquei muito indignada, apesar de conhecer casos semelhantes nos hospitais de Lisboa. É prática comum recusarem-se dadores de sangue apenas porque são homens gays. Como se existissem ainda grupos de risco e não comportamentos de risco. Como se as DSTs tivessem orientação sexual. Como se a sida em Portugal não tivesse maior incidência entre a população hetero.
Um outro amigo meu, depois de reclamar, foi mesmo aconselhado pela pessoa de serviço a omitir a sua orientação sexual, desculpando-se com "você tem razão, mas são as ordens que temos...". Ordens do Instituto Português do Sangue. É inadmissível, é idiota, é irresponsável e é inconstitucional. Mais uam vez, a homofobia encontrou formas de matar. Porque há quem precise do sangue do meu amigo.

Por enquanto, há pelo menos uma coisa que podemos todos e todas fazer: aderir à Campanha "Gota a gota perdemos vidas*", das Panteras Rosa. Espreitem em http://www.panterasrosa.com/sangue.html e, depois de lerem tudo, enviem o vosso protesto para as entidades responsáveis. Está lá tudo no site e não custa nada.

Domingo, Setembro 04, 2005

Remédios caseiros


Estou atrasada. Tenho 3 dias para terminar uma comunicação e um artigo. Não deveria ter tempo para me coçar, mas é nestas alturas que me ponho a experimentar coisas que não têm cabimento. Durante uns tempos foi o ponto de cruz. Depois o Mah Jongg. Hoje será aquela receita de sopa de uma programa televisivo com um divertido mocito britânico. Aqui vai a receita, a ver se partilho o desastre com mais alguém (ou a delícia, quem sabe?!):

Sopa de Grão e Alho Francês (versão corrigida!)
Cozem-se 340gr de grão de bico (previamente demolhado) sem sal e com uma batata para amolecer as cascas (grande dica!). À parte põe-se azeite e um pouco de manteiga a derreter numa caçarola. Juntam-se 3 dentinhos de alho às rodelas e, alguns instantes depois, 3 alhos franceses às rodelas. Aguenta-se 10m, para que os alhos reduzam. Junta-se o grão de bico cozido e 800ml de água quente na qual se derreteu antes um cubinho de knorr de galinha ou de legumes. Mexe-se tudo. Retira-se 1/4 desta sopa para lhe aplicar uma bela varinha mágica e voltar a incorporar (outra grande dica). Junta-se queijo parmesão ralado (sim, leram bem: queijo!!!). Deixa-se apurar. Prova-se, porque pode ser necessário corrigir o sal (ou juntando mais água ou adicionando uma pitada - note-se que o knorr e o parmesão já são salgados...).
Servem-se os pratos de sopa, no cimo dos quais se aplica o toque final: mais parmesão ralado e um fio de azeite picante (eu comprei aquele de canela com pimenta da Jamaica e... gengibre, está claro!!).

Feedback prometido após a refeição.

Sexta-feira, Setembro 02, 2005

Variações


(img daqui)
Não sei que raio se passa com os/as poetas, que se introduzem no nosso ser de formas desconhecidas e nos fazem concordar com aquilo que nem suspeitávamos reconhecer. E este poema devo-o a um post do cbs.

Quero cinquenta cousas ao mesmo tempo.
Anseio como uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja – Definidamente pelo indefinido…
Durmo irrequieto,
e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto,
metade a sonhar.

- Obras Completas, Álvaro de Campos, p. 258 -

Quinta-feira, Setembro 01, 2005

VHS podem ajudar


Soube hoje por email (obrigada Fátima!). Se não sabem o que fazer com os VHS que se acumulam em casa e que, invariavelmente, foram substituídos pelos DVDs, há uma solução. O Instituto Português de Oncologia (IPO) está a angariar filmes VHS para os doentes da unidade de transplantes que estão em isolamento - crianças e adultos que precisam de um transplante de medula e de estar ocupados durante o tempo de internamento.

O IPO aceita todos os géneros de filmes, mas a preferência vai para a «comédia». Afinal, rir é sempre um bom remédio! As cassetes de vídeo ou DVDs antigos podem ser enviados para:
Instituto Português de Oncologia de Francisco Gentil
Rua Professor Lima Basto
1093 Lisboa Codex
Toca a vasculhar esses armários!