
Percebo-te e reconheço as intenções mais nobres subjacentes aos medos levantados nos comentários do post anterior.
Mas nisto, como no resto, não acredito nas mais-valias do discurso único ao ponto de trocar a diversidade de argumentos pelas palavras mansas da persuasão. Há sempre quem prefira um ou outro discurso. E pessoalmente até te explico qual é que me faz nervos, embora perceba que é importante fazer dele uso. Aliás, o ânimo para a diplomacia só o obtenho porque me permito (re)produzir discursos menos 'pela metade' e, creio, mais capacitantes do que aqueles que se podem (devem?) ter quando se tem responsabilidades públicas.
Quando o medo e a opressão se instalam, um discurso afirmativo, combativo e aguerrido é frequentemente a alternativa mais libertadora. Em matéria de sexualidades, não o ouvimos com frequência por estes lados. Mas, como sabemos, esse discurso faz uma falta tremenda - antes, durante e, seguramente, depois do referendo. Reclamar o direito ao corpo não é ofensivo. Ou talvez seja e talvez só depois dessa 'ofensiva' se possa passar para o tal direito à indiferença. Por isso, sublinho: o discurso institucional pode ser brando e até pode ser que assim, finalmente, possamos dar um passo em frente a 11 de Fevereiro; mas a tal revolução sexual necessária está para além do que obtivermos com brandos costumes, de olhos envergonhados postos no chão, pacientes e resignadas e coradas de gratidão porque nos deixam decidir sobre os nossos afectos, sexos, corpos.
E voltas a ter razão quando suspeitas que o discurso do 'aqui mando eu' é virado para dentro: de olhos postos no pós-11 de Fevereiro, há toda uma geração de mulheres e homens para quem tal afirmação fará toda a diferença para sairem dos muitos armários onde nos escondemos quotidianamente. Foi essa afirmação pública que tornou possível, por exemplo, os Centres for Independent Living para as pessoas com deficiência. Trata-se do direito a ter voz, ainda que para tal sejam precisas marchas, bandeiras, panfletos ou simplesmente (!) gritar estridentemente até à rouquidão.
Complexo, polémico, lixado? Claro que sim. Já muitos e muitas antes de nós o disseram - o corpo é um campo de batalha.
Saibamos acolher a diversidade de discursos existentes e poupar as energias para o que se avizinha, isso é que era uma coisa linda.





/center>





0 comentários:
Enviar um comentário